Pequenas Mortes
- Jonatas Perote

- 16 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Por Jonatas Perote, Maracaçumé/MA, 16 de julho de 2025.

Dentre os mais variados mistérios que o homem tenta desvendar, desde tempos imemoriais, o da morte é o que lhe traz calafrios por toda a medula e dispara os canhões no peito. O cão dorme tranquilo depois da vigília, o galo pontualmente canta na madrugada e a coruja passeia à noite, assustando os fracos. E ano após ano repetem o ciclo sem a consciência do próprio destino. Sem a angústia do amanhã. Alheios ao fim.
O homem? O homem não.
Desde que foi expulso do paraíso e passou a lavrar, trêmulo, a terra, e aguar com o próprio suor o plantio, não teve paz. A cada vez que fere a terra, menos segundos de vida. A corrida frenética em busca de si, dos outros, de bens materiais, apontam para a mórbida linha de chegada… ou a primeira partida. Quem sabe? Mas antes do desaparecimento completo, vamos morrendo em parcelas. As oito horas de sono diárias, para os que conseguem, não são descanso, mas ensaio. Travesseiro e túmulo iniciam com a mesma letra. Coincidência? Castigo? Profecia?
Seria a morte então esse sono profundo?
O ditado já nos desejava: que a morte vos encontre vivos. A infeliz constatação da morte em vida. Novo dia, é menos outro dia. Matemática da perversão, habituada a subtrair, sorrateira e silenciosa. Em Quintana: “quando se vê, passaram 60 anos!”. A vida escorreu pelos dedos e lamuriou-se pelos ralos dos banheiros.
Morre-se a cada dia. É um treino o abanar de mãos na despedida. Enterramos os mais velhos, os amigos, os amores. Depositamos nossas lágrimas e condolências. O outro segue o desconhecido destino e, ainda assim, única certeza. Ofertamos um punhado de terra, na convicção de que “és pó, ao pó retornarás”, enquanto o que desejávamos era “e sereis como Deus…”. E puxamos a terra sobre nosso peito também.
Morre-se na palavra calada, no abraço torto, no sorriso sem graça e no afeto que veio tarde. Morre-se com os sonhos não realizados, no envelhecimento da infância e na esperança tardia. É o homem uma luz que se apaga lentamente, enquanto é expulso da vida. Sempre somos expulsos de algum lugar.
Somos, mas não permaneceremos. Inútil apegar-se às oferendas, dízimos, ofertas, regressões. O que há é apenas o flagelo que desce sobre as costas e perfaz caminhos sanguinolentos. Tornamo-nos o não-ser, o deixar-de-ser. Costuramos o riso com o silêncio, as ausências, os vazios. Levantamos, tímidos, as cabeças, ensaiamos nossos gestos de desistências.
Somos feitos de pequenas mortes. Fragmentos de adeus.
Sobre o autor
Jonatas Perote é poeta, professor e habita o espaço entre o silêncio e o papel. Formado em Filosofia, encontra na escrita um modo de expurgo e resistência. Cada palavra, para ele, é uma tentativa de aliviar o peso do que não se diz — ainda que o vazio sempre retorne mais denso. Compartilha sua literatura no Instagram (@jonatasperote), onde lirismo, dor e contemplação existencial se entrelaçam. Tem obras publicadas pela Editora Frutificando, onde também assina esta coluna. Autor de "O Sopro do Vento e outras Poesias".






Parabéns ao Jonatas Perrote. Uma grande certeza da vida é que nascemos para morrer. Então, bora viver a vida!😀
"Mas antes do desaparecimento completo, vamos morrendo em parcelas." Somos parcelados desde o nascimento, isso é bom, ruim? Somos parcelas de vida e de morte, depende do olhar para copo na mesa, cheio, meio cheio, meio vazio, vazio... Sua escrita é inspiradora e arrebatadora, Jonatas. Nos mata e nos faz vivos!